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Está Visto!

Dezembro 1, 2009

Em 2005 quando residia em Paris um amigo meu com carro levou-me a ver o Palácio de Versalhes. Meia hora de viagem, meia hora para estacionar, meia hora para chegar ao terraço de onde o mundo se apresenta geometricamente ordenado e cinco minutos para ouvir a expressão: está visto!”.

Foi esta mesma expressão que me veio à cabeça quando pela primeira vez vi as imagens que me foram enviadas por email por José Júpiter. Meia hora ao telefone para nos apresentarmos, meia hora a fazer download, sessenta e três jpegs linearmente ordenados numa pasta e cinco minutos para pensar “está visto!”.
Claro que não estava nada visto, nem na “cidade perfeita” nem na “cidade desfeita” mas deixem-me explicar.

Num primeiro olhar estas imagens falam-nos da cidade (Lisboa, mas poderia ser uma outra qualquer cidade) a cidade residencial, periférica, por vezes incongruente, abandonada, remetida ao silêncio nas horas de quem trabalha. Um tema recorrente da fotografia contemporânea, comprometida com a crítica à “cidade do espectáculo” (monumental e turística) e contra a qual emerge a necessidade de dar atenção a uma realidade quotidianamente desprezada. Trata-se de imprimir visibilidade ao banal, ao desprezível, a algum absurdo, numa espécie de neo-realismo tardio, mais físico que social.

O conteúdo destas imagens está visto. Não vemos pessoas nestas fotografias mas as pessoas já viram estes lugares que moram mesmo às suas portas. Está visto e não queremos ver mais porque não são exactamente aquilo de que nos orgulhamos. E combatemos a sua incomodidade com a nossa indiferença trabalhada no dia-a-dia como se o tempo fosse um antídoto perfeito. Mas não é. Pelo menos nos olhares dos fotógrafos, sempre atentos à origem de qualquer veneno.
Para os fotógrafos como José Júpiter nada é indiferente. Nada lhes passa despercebido nada é desprezível. Na sua produção incansável de imagens só têm como critério fugir do consensual, daquilo que se afirma a partir das imagens produzidas por todos os outros não fotógrafos. As suas imagens passam pela construção de uma contracultura; não exactamente no sentido radical de ruptura com a realidade social mas num sentido em que, precisamente, a partir dessa realidade, supostamente indiferente e perversamente domesticada, se afirmará o seu olhar irónico, crítico ou redentor.

No caso de José Júpiter este olhar pode ser muito subtil: dissimulado num enquadramento de uma empena lateral; na atenção sobre um objecto deslocado; na inquietação do que não se consegue ver por um tapume; ou sobre um sentido generalizado de inacção… No conjunto a atenção sobre objectos e espaços que, não sendo necessariamente disfuncionais, também não se esforçam por expressar sentido.

Esta leitura é ainda reforçada pela ausência de pessoas o que contribui ainda para um afastamento da tradicional composição entre figura e fundo. No plano destas imagens tudo se torna sujeito.

Não havendo nada de excepcional no conteúdo destas imagens, restará saber sobre aquilo que as legitimam. Seria provavelmente mais fácil pensá-las no âmbito do documento fotográfico de carácter objectivo e dizer que “as coisas são como são” e defender uma análise destituída de qualquer pretensão artística, resultado de uma qualquer encomenda ou algo que contribuísse para esclarecer o seu estranho propósito. Mas não. Sabemos, ou melhor, sentimos uma vontade indómita de construir o belo sobre o monstro. Ou seja, o propósito último destas fotografias parece ter como sentido uma esteticização da realidade mediada por imagens cuja forma salvará in extremis o conteúdo. Neste sentido José Júpiter propõe-se resolver o problema que ele próprio ajudou a criar. Num jogo infantil mas irresistível de palavras: dar visibilidade ao invisível legitimando o estático pela estética.

É na sua forma, na sua “superfície”, que estas imagens resgatam maior sentido. A começar pelo formato clássico, quadrado, que impõe harmonia no campo de visão mas também a composição tantas vezes centrada num ponto de fuga como que procurando uma ordem imediata onde ela não parece existir. Constrói-se deste modo de olhar uma dignidade que não olha a conteúdos. Depois ainda as cores suaves que garantem um equilíbrio apaziguador. E finalmente a luz, uma luz por vezes raiada, selectiva, pontualmente quente, capaz de transmitir esperança e tranquilidade de uma manhã ou final de tarde. É no contraste entre esta construção formal da imagem e o seu conteúdo informal que, paradoxalmente, se conquista um sentido artístico, inegavelmente belo.

Há um outro factor, ainda que subtil mas persistente. A relação entre o edificado e uma suposta natureza (jardins, árvores, canteiros). A evocação ironicamente romântica de uma “cidade jardim” e a evocação de planos e arquitecturas que, noutros tempos, tiveram a ordem ao seu alcance e que agora, humildemente, tentam resistir ao tempo e à complexidade social que os traiu. Neste sentido as imagens do Júpiter acabam por contrapor um optimismo rectificante a uma paisagem urbana escassa de vaidade.

Esta é também uma reconstrução nostálgica da cidade, a partir de um olhar inadvertidamente fragmentado mas inteligentemente capaz de encontrar um consenso e uma coerência inesperada. É essencialmente isto que não se possa dizer que “está visto”, talvez porque estas coisas só se sentem quando impressas numa superfície de papel. É isto que os fotógrafos fazem: mediatizar a nossa relação com o mundo. Tivéssemos todos esta compaixão sobre a cidade e tudo poderia ser tal como é… menos a emoção, seguramente maior.

Pedro Bandeira, Novembro de 2009

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